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A paz baseia-se no respeito por nós próprios e pelos outros

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 08.01.16

Foi a partir dos debates presidenciais que me surgiu este filme de Nicholas Ray, Johnny Guitar. Neste filme temos os heróis solitarios e corajosos, os malandros deste mundo, e o grupo que funciona como uma barreira a toda a vivacidade dos que pensam pela sua própria cabeça.

Cada geografia e cada época tem os seus heróis, os seus malandros e os seus grupos. Muitas vezes os malandros ganham aos heróis, outras vezes perdem. Os grupos, facilmente manipuláveis, ajudam os malandros pois preferem as personagens às pessoas reais, de carne e osso. 

Neste filme os heróis ganham, mas por um fio. Terão mesmo de se bater com os malandros nas suas condições e com as suas armas. Armas que nunca quiseram usar porque não são as suas. As suas armas são a inteligência, a criatividade e o respeito pelos que os rodeiam.

Tudo neste filme é cinema na sua cor magnífica, nos espaços, no enquadramento, nas sequências, no ritmo, nos diálogos. Nada está a mais, nada.

Percebemos, ao longo das primeiras cenas, o que está em jogo. A rivalidade e a obsessão de Emma por Vienna, que não são correspondidas. O desejo de Emma por Dancing Kid, também não correspondido. E um novo encontro, providencial para os dois, de Vienna e Johnny. 

O filme alerta-nos para nos mantermos atentos e vigilantes. Não basta vivermos em paz e respeitarmos os outros. Porque há sempre outros que não pensam nem vivem assim. Há sempre outros que, não sabendo viver em paz, interferem na paz de muitos.

 

 

 

 

 

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publicado às 15:57

A atmosfera de Leave Her to Heaven lembra-nos as obsessões das pessoas habituadas a manipular todos à sua volta para conseguir o que querem. Geralmente estragam a vida aos que com eles convivem ou que caem na sua teia. Tal como no Sunset Boulevard, é a lógica da mosca e da aranha. Pensei em Sunset Boulevard pelas semelhanças da loucura do manipulador, pela ausência de vitalidade, de sentimentos, de afecto. Só que aqui a personagem, também escritor, salva-se no final, mas não sem passar um mau bocado.

 

O manipulador está geralmente numa posição de aparente poder. Digo aparente porque esse poder é alucinado, não é real. Mas o que mais surpreende é a ingenuidade dos que se deixam enredar na teia da manipulação emocional.

Personagens narcísicas que não gostam de ser contrariadas, que se julgam o centro do mundo, que desconfiam de tudo e todos, e que eliminam quem consideram um obstáculo, aqui de forma premeditada. E o obstáculo é qualquer pessoa que ocupe a atenção da pessoa-objecto da sua obsessão. E pior ainda se for alguém que seja querido pela pessoa-objecto da sua obsessão. 

A atmosfera do filme acompanha o tecer dessa teia. Quase a sentimos a formar-se à volta das personagens, da casa, do escritor. Os afectos familiares são afastados, uns de forma brusca outros de forma trágica, até ao isolamento de uma vida onde só cabem dois.

 

Quando alguém manipulador, logo incapaz de amar porque amar não é controlar e limitar, percebe ou pressente o amor genuíno em outros, o ódio que daí nasce é destruidor. Aqui trata-se de uma vingança que possa impedir a felicidade de outros. Se eu não te posso ter ninguém pode, é a lógica.

O que o manipulador não percebe é que não é uma questão de posse. Ama-se quem é livre de nos amar ou não. O amor surge naturalmente, de forma natural, familiar. Apoiam-se um ao outro, animam-se, inspiram-se.

 

A cena final é uma das minhas preferidas. Depois de todas as atribulações e sofrimento, o encontro no lago (adoro lagos e são sempre cinematográficos). Ele vem a remar um barquinho, ela espera-o ansiosa, no seu vestido branco, no pequeno cais de madeira. Abraçam-se. E vemos aquele céu sobre eles e sobre nós.

 

 

 

 

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publicado às 00:10

A rigidez das expectativas como obstáculo ao tempo próprio da natureza

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 28.07.13

Já reparei que volto sempre aos westerns dos anos 50 com mais este The Proud Rebel. Na verdade, estes westerns podiam ser transpostos para um qualquer outro cenário pois as cenas são universais. Um homem viaja para norte com o filho à procura de trabalho, mas também de uma cura possível para a mudez do rapazinho. É essa a sua expectativa, a sua quase obsessão.

Nestes enredos há sempre uma tragédia passada qualquer, aqui é a guerra norte-sul, a destruição e as ruínas que deixou no final. Vamos percebendo que a dificuldade do rapazinho surgiu do choque, do trauma de um incêndio da casa. Agora comunica por gestos, o que entristece o pai. É o pai que não aceita a situação e insiste em correr os médicos à procura de uma solução. O rapazinho é tímido e dócil mas razoavelmente feliz, sobretudo quando brinca com o seu cão.

Também nestes enredos surge um conflito e invariavelmente é um conflito ligado ao poder e ao preconceito. Depois de ser atacado por dois rufias, filhos de um dos homens mais poderosos da região, vê-se num julgamento e na possibilidade de ficar preso por um mês.

Mas também nestes enredos há uma mulher que se arma em protectora do rapazinho e, por arrastamento, do pai do rapazinho, e responde pela fiança em troca de trabalho na quinta. A mulher consegue assim a colaboração de alguém, mas também a protecção relativamente àqueles três homens, seus vizinhos, que lhe têm tentado comprar a quinta por lhes ficar no caminho, precisam de mais pastos.

 

Como disse, o cenário podia ser outro, o tempo outro, mas são seriam aquelas planícies a perder de vista, nem aquelas cidades de madeira no meio do nada, nem veríamos cavalos, carroças, nem aquelas fatiotas da época adaptadas aos anos 50, nem a música seria entre o épico-clássico e o tradicional-pioneiros. É o meu cenário de filmes preferido, pelos vistos, porque estou sempre a voltar a esses lugares.

 

Todos os que gostam de cinema americano dos anos 30, 40, 50, já conseguem adivinhar o que vai acontecer no filme, o desenvolvimento do enredo já desenhado no início. Mas não sabem, nem eu sabia, como cada um deles iria encarar a mudez do rapazinho:

- para o pai é uma questão prioritária, vai ao fim do mundo se for preciso à procura de mais um médico que o possa curar. Digamos que encara a mudez do filho como um problema que tem de ser resolvido, uma limitação que tem de ser ultrapassada;

- o rapazinho não partilha a obsessão do pai e aceita essas consultas, embora contrariado, porque gosta muito do pai e porque tem o escape das brincadeiras com o cão;

- a mulher encara esta mudez de forma natural e percebe desde logo que o essencial é deixar que a natureza actue no seu tempo próprio. Percebe também que o rapazinho está desejoso de participar nos trabalhos da quinta, aprender coisas novas e, apesar da relutância do pai, dá-lhe tarefas simples para o ocupar.

 

As expectativas, quando implicam forçar uma situação sem a compreender na sua profundidade, podem tornar-se um obstáculo aos próprios objectivos que se pretendem. O homem fragiliza a sua posição e a do próprio filho para conseguir obter os meios necessários para a próxima consulta de um médico especialista. Aqui tememos o pior porque implica uma operação (nos anos  50 tudo se resolvia com operações mesmo que o problema fosse psicológico).

 

Mas tudo acaba bem no final, como se exige a um bom western desta época poética: o rapazinho acaba por falar, numa situação-limite em que tem de avisar o pai para o salvar do perigo. Finalmente voltam a casa onde a mulher os espera ansiosa.

Tal como no Rio sem regresso, vemos este trio poético: a mulher, o homem e o rapazinho. Há uma cumplicidade muito subtil neste trio: o homem aprende que há coisas mais importantes do que o orgulho e a obsessão de atingir um objectivo, e que há outras formas de lidar com um problema; a mulher aprende que é possível confiar em alguém sem perder a autonomia e que vale a pena defender o seu espaço das invasões exteriores.

Interessante no filme a figura da mulher autónoma, que é vista por esse facto com desconfiança pela comunidade. Talvez por ser autónoma, acaba por saber o que as mulheres dependentes não sabem: suavizar o caminho daqueles dois, respeitando cada um deles. Aceita as decisões do homem, a sua responsabilidade de pai, embora lhe dê a sua opinião, e deixa o rapazinho exprimir-se à sua maneira e participar, para aprender e crescer de forma tranquila. Isto pode soar polémico, mas as mulheres dependentes utilizam a posse e a manipulação para lidar com estas figuras masculinas.

Interessante também no filme como o homem só ultiliza a arma como último recurso e evita que a mulher dispare à primeira provocação, o que revela uma posição firme e clara de uma perspectiva pacífica, anti-bélica. Esta perspectiva é reconfortante porque contrasta com a época actual no cinema.

 

 

 

 

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publicado às 07:23

A década dos monólogos oníricos e das sombras assombradas

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 10.08.10

 

Anos 40, pois. Uma das décadas de cinema mais esquecidas e negligenciadas neste rio...

Coloco a navegar um Daphne du Maurier, pelo olhar de Hitchcock, Rebecca. Acreditam que já não me lembro o que vi primeiro? Se o filme, se o livro? Como ainda vejo dois filmes sobrepostos, parto do princípio que terei lido o livro primeiro. Mas posso desde já garantir que, ao filme, o vi ainda na televisão a preto e branco (o que não faria diferença porque o filme é mesmo a preto e branco).

 

O que que me hipnotizou desde logo no filme foi aquele monologo inicial, da Joane Fontaine, a descrever um sonho em que voltara a Manderley... A partir desse monólogo de voz sonhadora, já não pestanejei até ao the end.

Hitchcock sublinha aqui o lado sombrio, mesmo na parte inicial do filme que é a mais luminosa e descontraída. O homem encontra a rapariga simples e ingénua, dama de companhia de uma ricaça arrogante. Nada no seu encontro sugere intenções sórdidas. O homem percebe que encontrou alguém muito especial, e de certo modo protege-a da sua própria ingenuidade. A não ser naquele momento crucial, decisivo, em que lhe diz para escolher: continuar aquela vidinha cinzenta e servil ou acompanhá-lo.

Esta é uma personagem feminina desconcertante. A sua ingenuidade aproxima-a muito das crianças e coloca-a numa situação muito vulnerável. Fosse este homem um oportunista sem escrúpulos e a rapariga ficaria com dois problemas e a vida estragada. Mas não, este homem descobre nela o amor sem reservas, e mal quer acreditar, que o amor pode ser doce e genuíno, e a companhia de alguém leve e alegre. Para se perceber isso é preciso uma sensibilidade especial e este homem é sensível, além de reservado. Deixa-se tocar ao de leve por esta criaturinha infantil, deixa-se iluminar por ela, porque tudo a entusiasma e emociona!

Foi assim que a imaginei, vestidinho branco vaporoso, cabelo solto com caracóis, rosto muito branco, a sorrir-lhe, enquanto ele a guia por montes e vales nesse breve verão. Já não sei se é assim no filme, mas lembro-me da cena do hotel, nessa manhã em que ela rompe pelo seu quarto a contar-lhe que a ricaça tinha decidido partir, e nunca mais o veria, nunca mais! Esta cena é memorável, ele imperturbável a oferecer-lhe o pequeno-almoço e ela desesperada a imaginar despedidas tristes...

A atmosfera adensa-se, a partir da chegada dos dois a Manderley. A rapariga sente-se a intrusa naquela casa, sensação horrível. Apesar de tentar assumir o seu papel, há aquela sombra negra da governanta da casa. E a sombra da anterior dona da casa: Rebecca. Os filmes dos anos 40 adoram estas sombras e estes fantasmas... Respiram destas sombras e destes fantasmas, já repararam? Sombras e fantasmas que funcionam, aliás, muito bem em linguagem do cinema. Como se fossem da mesma natureza.

 

Até perto do fim, vivemos suspensos do desfecho. Chegámos a duvidar, como ela, que Maxim já não a amasse. Descobrimos, repentinamente que, para ele, ela é a única coisa real, genuína, verdadeira. Esta súbita declaração de amor é fortíssima no livro. Ele pensa que é tarde demais, que está tudo perdido, e nós também pensamos com eles, afinal o corpo de Rebecca apareceu naquele barco afundado. O seu fantasma tinha voltado para lhes assombrar a vida.Chegámos a duvidar, pois, e até ao fim, tal como eles, que Maxim se conseguisse libertar daquele pesadelo. E mesmo quando ele é ilibado, com o diagnóstico do médico que acompanhara Rebecca, ficamos com uma desagradável sensação. Ainda não era desta que os dois teriam sossego. Esse desconforto não nos larga, um pressentimento. Afinal, entrámos no filme e no livro, e agora acompanhamo-los de carro até Manderley.

Manderley que surge no horizonte, ao longe, em chamas.

Hitchcock acompanha a voz da Daphne du Maurier na perfeição. Mas acrescenta, à sua voz, a linguagem do cinema, as sombras, os planos, as tonalidades das vozes de cada personagem, os olhares, pormenores subtis...

E aquele monólogo inicial... reparem bem nessa voz sonhadora a sobrepor-se à aproximação da casa, entre folhagem e sombras, nesse regresso a Manderley...

Perfeito.

 

 

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publicado às 21:50

A vida sonhada

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.11.08

 

A obsessão dos sonhos infantis. Sonhar com o Paraíso e descobrir que se perdeu o essencial, e que o Paraíso é, afinal, um mausoléu.
Fascinante, perfeita, esta reprodução fiel de toda uma atmosfera irreal. Porque irreal é a vida da rapariga, Angel. As grandes ilusões, as busca que julga essenciais, só porque em criança olhou, através de um portão, todo um mundo que lhe pareceu mágico: o Paraíso.
Vemos tratar-se de um melodrama. E vemos que aquela atmosfera nos lembra outra época do cinema: cenários delirantes, salas enormes, janelas altíssimas, reposteiros que parecem descair do céu. François Ozon dir-nos-á, na entrevista (no DVD), que Angel é essencialmente uma homenagem aos retratos de época dos anos 30 e 40, muitas vezes elaborados por realizadores europeus, expatriados devido à guerra.
Revela ainda ter ficado fascinado com o livro (1) e com a personagem Angel que é baseada, aliás, numa grande escritora, contemporânea de Óscar Wilde e preferida da Rainha Vitória, actualmente completamente desconhecida, mesmo do público inglês. Terá sido uma das primeiras escritoras inglesas com best-sellers. E explica que, na sua adaptação, procurou alimentar-se das suas próprias obsessões, da sua visão do livro, da sua interpretação do enredo. Refere ainda que Angel não é uma personagem simpática, inspira sedução e rejeição. (2)
É fascinante acompanhar este amor ao Cinema, esta paixão, diria mesmo, de François Ozon! E isso é visível na entrevista. Para evidenciar que a história de Angel está mais na sua cabeça do que na realidade, por exemplo, recorre a técnicas utilizadas no Cinema até aos anos 50: montagens de imagens que passam por trás dos actores. (3)
Quem ama o Cinema, o cinema-arte, o cinema quase perdido, gostará de ver Angel. O enredo é melodramático, intenso, excessivo. François Ozon dar-lhe-á uns retoques que resultarão de forma surpreendente no filme. E as personagens, muito bem construídas. Os actores, maravilhosamente dirigidos. (4)

 

E vamos então às personagens:
Angel: cria um mundo de fantasia onde vive e se refugia. Dela se poderá dizer que a loucura é sedutora e que os sonhos infantis são obsessivos. Sonha com uma vida principesca, como a crianças. Nega e rejeita a sua realidade, de quem mora por cima da mercearia, onde a mãe passa o dia, numa rua que considera feia e deprimente. A lógica da sua vida será essa: perseguir o sonho até o encontrar.
A mãe de Angel: simboliza a vida simples, a sensatez, a dedicação, a responsabilidade, o convívio, os afectos genuínos, a generosidade. É o grande amor pela filha que a perderá. Deixar-se-á envolver pela sua loucura, segui-la-á naturalmente para o casarão e aí murchará a olhos vistos. Ali não há lugar para o convívio sequer. Perdeu todas as referências: o contacto com afectos genuínos, uma rotina de cuidar dos outros, de ser útil e necessária a alguém.
O editor: ficará de imediato fascinado, seduzido, por toda aquela energia de Angel, que tentará disciplinar um pouco, mas sem qualquer resultado. A rapariga é obstinada, completamente fechada a sugestões. Para quem já tem todo o seu futuro programado na cabeça, ao ponto de nada nem ninguém lho poder alterar, como poderia aceitar alterar pormenores dos seus romances delirantes? Mas o editor já se rendera ao seu encanto e, além de publicar os seus romances delirantes, sem nada alterar, será para ela uma figura paternal, recebê-la-á em casa, apesar da irritação que provoca na mulher, que não tem paciência para raparigas patetas.
A mulher do editor: ainda atraente, há nela uma mistura sedutora de sensatez e de ironia, cultura e requinte, inteligência e frontalidade. Talvez um pouco cínica, mas apenas como forma de se adaptar melhor a uma sociedade artificial e fútil onde o casal se movimenta. Inicialmente irritada e impaciente com aquela criatura arrogante, lamentará mais tarde os seus infortúnios e aceitará filosoficamente o fascínio do marido por ela.
Esmé, o marido de Angel: o homem em quem Angel fixa a sua obsessão. O seu amor (dela) é intenso, excessivo, sufocante. Deixa-se amar por ela, porque lhe convém a protecção financeira. Ou também porque ela é a única que acredita no seu valor artístico. François Ozon coloca-o, no filme, como representante dos artistas que se antecipam à sua época, os incompreendidos: vemos os seus quadros empilhados no estúdio porque ninguém lhos compra, a não ser Angel.
Nora, a irmã de Esmé: é a amiga fiel, sim, como um cão fiel, que vive na sombra de Angel. É a pessoa que idolatra os outros, apagando-se. De certo modo, aqui a alimentar o narcisismo, o egocentrismo de Angel. É um suporte emocional e afectivo, a confidente, com quem se conta sempre. Ficará com Angel até ao fim...
Mas antes de verem o filme e descobrirem como François Ozon transportou a história para a linguagem do Cinema, fechando-a, de forma dramática, as cenas que escolhi:

- nessa noite fria, quase fantasmagórica, Angel e o editor olham, através do portão, o Paraíso. Angel fala-lhe do seu sonho de infância, de como passava por ali e ficava a olhar, através das grades do portão, todo um mundo sonhado... O editor ouve-a, atentamente. E então colhe uma flor de uma trepadeira e oferece-lha: Uma dádiva do Paraíso...
- o editor conversa com a mulher e fica surpreendido ao vê-la dizer que lamenta o infortúnio da rapariga: Não consigo aceitar a escritora, mas aprendi a admirar a mulher, a forma como lutou pelos seus sonhos. E mais surpreendido fica quando a mulher lhe pergunta se ainda está apaixonado por ela: O que te leva a dizer isso? A mulher responde: Os teus olhos...

 

Angel verá, no final, que a sua foi uma vida sonhada. Mas nós sabemos que houve alguns momentos de verdade. Foi ao editor que ela confiou o seu sonho e os seus medos: a fealdade de uma rua e de uma vida obscura.
Aqui sobrevivem e resistem as personagens que melhor se adaptam à vida real. Nora irá tentar manter a sua memória, embora, como diz ao editor, os seus livros já não sejam populares. François Ozon consegue aqui uma certa ironia histórica: Angel, que utiliza a sua arte para agradar ao público, o que a torna famosa e rica, é completamente esquecida; Esmé que, contrariamente a Angel, procura na arte a autenticidade e que é incompreendido na sua
época, será reconhecido após a sua morte.

 

(1) de Elizabeth Taylor, sim, perceberam bem...

(2) Para construir a personagem Angel, inspirou-se em Scarlett O'Hara - magnífica Vivian Leigh!

(3) Lembram-se dos filmes em que os actores viajam de carro, sobretudo, e a imagem corre por trás? Hitchcock utilizou-a com frequência.

(4) ...com algumas peripécias de comunicação: deliciosa descrição da reacção de Sam Neill que não percebe o francês e que é apoiado pela colega e amiga Charlotte Rampling.

 

 

 

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publicado às 12:11


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